
Talvez tenha começado no livro do García Márquez, escancarando esta cegueira humana que só tem cura na velhice, para que os condenados consigam enxergar o passado claramente e ver como jogaram bons tempos no lixo do mundo.
Lembrei de São Paulo, uma cidade que eu considero praticamente insuportável com o seu trânsito, suas filas enormes, seus lugares lotados e apertados de gente, seu fedor de esgoto e escapamento impregnado nas ruas, nas casas e dentro da gente.
Talvez por isso eu tenha feito amizade com um casal de idosos na praia. Porque com os velhos eu consigo conversar sobre o tempo, a época das frutas, as cores do dia, as técnicas para crescer as plantas, os gostos das comidas, os barulhos dos bichos e outras coisas que não interessam mais a ninguém, porque são bobas.
Também lembrei das conversas com meus pais, tão deliciosamente leves e cheias de vida, e tantas vezes cheias de arrependimento pelo tempo que se perdeu com "Coisas tão idiotas, meu Deus! E eu não conseguia ver".
Acho impressioante que ainda hoje, mesmo com tanta informação, as pessoas ainda desconheçam a obersevação do próprio futuro no rosto e nas palavras de quem já passou por estes mesmos caminhos. Estamos todos indo exatamente para o mesmo lugar, mas ninguém percebe.
E quanto mais internet, livros, programas de TV, filmes e acessórios tecnológicos, mais ignorantes tornam-se os ocupados, sem tempo para viver, estressados porque precisam correr atrás de alguma coisa que, talvez, nem alcancem, porque morrem de cansaço na praia.
Eu não quero morrer na praia. Quero visitar a praia enquanto estiver viva. E isso hoje me deu uma sensação enorme de solidão.
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